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Vila Z.D.Costi: um lugar topofílico

Vila Z.D.Costi: um lugar topofílico

Marilice Costi – Arquiteta e Urbanista, Mestre em Arquitetura (UFRGS), Docente, Especialista em  Arteterapia e Escritora.

 

Foi para conhecer a topofilia da Vila Z.D.Costi, que decidi pesquisar uma ex-operária do Frigorífico Z.D.Costi, que aqui passa a ser Elisa.

Para acessar a vila, era preciso seguir pelo Beco dos Costi em piso de chão batido. A Vila era localizada aos fundos da casa do empresário e ao lado das edificações da fábrica.

A chaminé vinha perdendo tijolos, que despencavam de seu topo há meses (figura abaixo).

Chaminé do frigorífico Z.D.Costi após o fechamento da empresa

A vila operária era formada de casas de madeira de tipologia similar, postas em linha até chegar perto do açude aos fundos. O acesso pelo chamado Beco dos Costi, tinha à direita a casa do fiscal da empresa e à esquerda, a da D. Lídia, mãe da Marlene, veja a matéria Partilha entre vizinhas neste blog. A casa do patrão, como chamavam, ficava na Avenida Presidente Vargas, defronte ao quartel da Brigada Militar.

A pesquisa foi de tipo qualitativa, com desenhos e entrevista, realizada na casa de Elisa. Ela morava na vila há mais de 30 anos e se preparava para sair da vila, teria que mudar-se. Elisa constituíra família, tinha filhos. Tinha baixa escolaridade, bom nível de inteligência, religiosidade e muita afetividade. Sorridente e doce no olhar, era muito comunicativa e empática.

Como ela se sentia ao ver a chaminé destruída por falta de manutenção marcava o encerramento do trabalho fabril de modo visual e sonoro? O som de queda dos tijolos surpreendia a todos em qualquer hora do dia.

Elisa realizara melhorias na casa. Construíra garagem, arrumara a fiação, fizera pintura e substituíra peças degradadas. E ainda vou arrumar a rua (de chão batido), pois quando chove faz barro, disse-me, esquecendo-se que teria que abandonar a casa, território de sua família por tanto tempo, para ser demolida. Abaixo, sua casa e o caminho pelo Beco dos Costi à avenida.

 

O trajeto feito milhares de vezes e o movimento do barro quando chovia são marcas constantes em seus desenhos. Muitas vezes, esse caminho recebeu cascalho para melhorar a acessibilidade dos trabalhadores, mas não é o que ela representa. Abaixo, observa-se o caminho em curva na área aberta defronte às moradias (à esquerda da imagem).

Vista Aérea do núcleo fabril Z.D.Costi e Cia. Ltda. década 50 – Imagem: Czamanski

As relações humanas e o lugar

Na vila, todos se conheciam. Muitos iam juntos à Igreja São Cristóvão e às festas religiosas, aos bailes e churrascos no clube. Ajudavam-se levando ou buscando filhos em escola.

Desde a falência da empresa, Elisa sofria pela perda dos empregos familiares (ela e o marido foram operários) e pelo silêncio.

Sinto saudade do movimento, a chaminé vem caindo, a casa da Dona Alice foi dividida ao meio, a fábrica parada… 

Elisa sente falta dos “gritos do Seu Reinaldo”, representando a figura masculina na voz de comando de atividades na fábrica.

Elisa conta:

– A esposa do empresário (Alice Sana Costi) era sempre a primeira a chegar quando alguém nascia ou morria, participava das atividades religiosas e me ouvia sempre. Com a direção da empresa (Zeferino Demétrio Costi, empresário), eu sempre conseguia transporte para hospital, dinheiro para remédios.

Sua consciência de passado refere-se mais ao que foi bom naquele tempo, ao que considera que tinha valor e perdeu-se (Tuan, 1980). Não lembra do cheiro ruim e das moscas vindas da pocilga.

Ela demonstra abaixo o desenho da casa do empresário. O caminho é simples, limpo, apenas marcado pelo pinheiro existente no jardim, um ponto de referência pela sua imponência de árvore florestal e o solo do beco e o chão batido de argila.

 

A casa do empresário e o pinheiro do jardim – desenho de Elisa

Espaços permeáveis integrativos

A fábrica não era escondida como hoje são as novas indústrias com muros altos em seu entorno. Seu muro era apenas uma simples cerca de arames e moirões. Entre as casas, apenas um pequeno muro baixo, onde se podia sentar facilmente, de alvenaria limitava territórios, não impedindo qualquer comunicação. A isso se chama permeabilidade ambiental, facilitando as relações vicinais.

Havia também contenção, pois os problemas eram resolvidos no próprio núcleo, ambiente que permitia comunicação devido à proximidade de territórios e à acessibilidade.

Elisa representou figuras parentais fortes e presentes em um caminho que configura um útero. Demonstra o acolhimento recebido. Elisa já construíra nova casa, mas ainda não morava nela porque “gosta mais” da Vila (sic).

 Elisa mostra seus caminhos. Na parte superior do desenho, à esquerda, a casa do patrão e os fundos da casa onde era o quintal, as casas da vila (imagens iguais) e o muro, limite entre a vila e a empresa.

Território continente: um patrimônio histórico perdido

Uma área como esse núcleo fabril pode ser considerada continente. Um espaço que contém, com função de continência, portanto, acolhe, decodifica, protege.

O ambiente que se estabeleceu nessa região “continha a moradia e as angústias” de seus “operários-bebês”. Inúmeras vezes D. Alice foi procurada por eles para pedirem apoio, contarem suas dificuldades, problemas com filhos, no matrimônio… Ela sempre os acolhia, ouvia, orientava, ajudava a encontrar soluções.

O desenho do porco vivo no portão da fábrica, a marca que lhe importa, e as benfeitorias na casa podem demonstrar grande esforço em manter a vida, rejeitando a falência. Ela ainda deseja a reativação da indústria.

O desenho da marca com um porco existia no portão da fábrica.Esse continente que vinha sendo modificado pouco a pouco desde a primeira concordata, pelo tempo e pelo descaso do síndico da massa falida, vinha dando um tempo para que os moradores saíssem das casas. Depois, sem cuidado algum, preparava sua demolição. Seu valor e sua importância história não eram importantes. Havia muito interesse na valorização da gleba – 22 hectares de área urbana – para arrecadar mais no leilão. E assim foi. A região foi arrematada por preço vil na segunda chamada.

Um lar existe aonde nosso self está, afirma Marcus (1995;153). A relação de um continente com seu conteúdo também pode existir de um grupo contendo um indivíduo, afirma Bion, ou vice-versa (Zimermann, 1995;40).

Elisa sofria menos as suas perdas cuidando da casa, mesmo sabendo que iria embora, ela tentava perpetuar o tempo.

O que restou?

A interrelação continente-conteúdo é inerente à dimensão espacial, portanto, o tipo de implantação – a distribuição dos elementos construídos em determinado espaço – refletiu nas relações humanas.

A morfologia do conjunto fabril foi geradora de segurança. A vila foi protegida física e socialmente devido à sua implantação, distribuição de elementos arquitetônicos no espaço.

O sofrimento de Elisa pelo fechamento da fábrica e os cuidados com o que não era seu demonstraram que o lugar era topofílico. A consciência do passado foi outro elemento importante na percepção de seu amor pelo lugar ao falar do que foi bom apenas.

As relações de solidariedade e a vida comunitária no núcleo fabril configuravam patrimônio histórico ambiental e cultural, o que foi desconsiderado pelos interessados em quitar as dívidas da empresa. Isso resultou na implantação de um shopping, que, como dizem na cidade, são “sinais de progresso”.

 

Referências

MARCUS, Clare Cooper. House as a mirror of self. California: Conari Press, 1995.

TUAN, Yi-fu. Topofilia. São Paulo: DIFEL, 1980.

ZIMERMANN, David E. BION: Da teoria à pratica: uma leitura didática.Porto Alegre: Artes Médicas,1995.

 

Trabalho de pesquisa e escrita da Escritora Arquiteta MS Marilice Costi com apoio para análise e interpretação de dados da Psic. Terezinha Becker. O resumo dessa pesquisa foi publicado no VII ENCONTRO DE TEORIA E HISTORIA, Arquitetura Industrial, UPF, 2003.

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