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Meu autista adulto, entenda mais…

Meu autista adulto, entenda mais…

Meu filho chegou em casa chateado, pois uma vizinha tinha lhe dito que ia deixar de ser sua amiga… E isso ia acontecer porque ele não estava indo na área de estar do condomínio, onde costumam sentar-se e conversar.

Se essas pessoas falaram em tom de brincadeira achando que ele entenderia, elas não sabem como é o funcionamento de um autista.

Não existe metáfora!

Então, ele REALMENTE acredita que perderia a AMIZADE dos amigos, pois o que você diz é o que ele lê: palavra por palavra, sempre no sentido literal.

Em outro momento, um morador reclamou de mim para ele. Era melhor se viessem falar comigo.

Se reclamarem da mãe, ele se sentirá inseguro. Tem dificuldades de conviver com pessoas que não nos querem bem, como ele quer.

E ele conta ou não me conta? Entra em ansiedade. E irá mei contar, porque ficou aborrecido e não sabe lidar bem frustrações e nem que atitude tomar.

Ironia, que para ele é muito difícil entender, significados das palavras – as metáforas… mais complicado ainda… E a compreensão corporal… tão treinada…. era brincadeira? era gozação? era verdade?… para que alivie sua ansiedade, é preciso sentar com ele e lhe explicar tudo, fazê-lo pensar. O que eu faço há 4 décadas.

A insegurança e a repetição

Meu filho está sempre inseguro. Frequentemente, muito frequentemente, pergunta-me a mesma coisa. Se eu lhe passar a pergunta, ele saberá a resposta, mas parece que sempre precisa confirmar se sabia, perguntando novamente. E isso me cansa.

Não é possível contar as vezes que tentei esclarecê-lo. Não adianta.

A cada dia, um novo dia. Tudo de novo. E nem sempre tenho paciência para dizer a mesma coisa. Me irrito, fico cansada…

Eterna criança, ele quer que satisfaçamos sempre as suas necessidades. E muito trabalhamos a aceitação de limites junto com a terapeuta. Imagine quantas vezes isso, desde os 5 anos?

O pensamento concreto

E quando lhe contam problemas pessoais que ele não consegue compreender?

O que para os outros é ironia ou gozação, brincadeira, ele raramente percebe. Muito treino, muito treino.. Algumas vezes é sensível ao tom da voz, e diz que não gostou… e isso lhe faz mal, porque não entendeu a fala, não compreendeu a linguagem, sente que é queixa, mas o que fazer, já que gosta tanto de ajudar as pessoas?

Ele é adulto, está envelhecendo, mas continua imaturo em suas afetividades. Não mudará nunca seu jeito de entender as coisas: SEMPRE O CONCRETO.

Hipóteses continuarão incompreensíveis...

Se ele falar o que pensa, vão rir dele… ele vai notar e se chateará.

Portanto, meu filho pode sofrer porque “acreditar” que perderá a amizade de pessoas pelas quais têm muito carinho no condomínio, por motivos fúteis, que ele não entende.

Foram alguns dias para que eu conseguisse convencê-lo de que não era uma verdade…

Amigos para os autistas

E foi assim que eu lhe acalmei. Disse-lhe: AMIGO DE VERDADE não cobra comportamento de outro amigo. Vai lhe perguntar Como vai? O que aconteceu? Estavas doente? Por que não desceu mais para conversar conosco? Sentimos falta da tua companhia…

Não é assim que todos nós fazemos com nossos amigos? Por que com ele é diferente?

Não podemos testar os sentimentos dessas crianças grandes… Elas não merecem isso. Seus sofrimentos já bastam e são muitos.

Quer ajudar? Ensine-o a pensar. Questione dentro de suas possibilidades… e vai construir linda amizade com ele.

Responder lhe fará bem, claro que dentro das suas capacidades, de seus limites.

Tempos atrás

Quando seus irmãos eram adolescentes, eles diziam que ele copiava o que eu dizia, como se fosse exigência minha, como se fosse eu que comandasse o que ele diria. Nunca, eu dizia, por que desejaria que não pensasse por si mesmo? Não acreditavam em mim. Diziam que ele era inseguro e não sabia o que dizer porque eu cobrava dele, então, para me agradar, ele repetia o que eu falava.

Seu diagnóstico de autista foi dado aos 40 anos!

Isso foi um bem na família. Apaziguou a todos. Ter um irmão autista resultou em mais compreensão, melhorou o comportamento dos irmãos para com ele, pois passaram a entender suas limitações e a aceitar seu comportamento repetitivo, copista e o lento desenvolvimento.

Os autistas ainda são pouco conhecidos. Muito a descobrir.

Saber mais do irmão, mudou o modo de encarar as suas situações. Sabendo mais, consegue-se cuidá-lo melhor.

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MARILICE COSTI

Escritora e oficineira, é Especialista em Arteterapia, Mestre em Arquitetura (UFRGS). Criou e editou, também foi capista da revista O Cuidador (2008-2015). Recebeu Prêmio Açorianos 2006 em poesia. Tem muitos livros publicados, entre eles: As palavras e o Cuidado, Arteterapia e Literatura (2018) e A Fábula do Cuidador (2016), os mais recentes. Cuidadora, mãe, avó e bisavó jovem. Dá palestras e ministra cursos. Diretora de SANA ARTE.

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