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Quando a DOR do outro reaviva a minha: Empatia Empresarial?

Quando a DOR do outro reaviva a minha: Empatia Empresarial?

Antes que o frigorífico Z.D.Costi fosse leiloado, desejei saber qual era a percepção urbana de seus ex-operários e quais eram seus sentimentos por estarem vivendo um cotidiano de degradação da área urbana antes viva e produtiva. O resultado foi publicado em evento sobre Arquitetura Industrial na Universidade de Passo Fundo, em 2003, juntamente com o artigo sobre a história do núcleo fabril.

Esses operários moravam na Vila Z D Costi, formada por casinhas de madeira falquejadas, com acabamento de mata-juntas, vendidas à época da construção. Todas da mesma tipologia.

Convivi com muitos deles em suas casas, sempre recebida com grande carinho, pois eram a extensão da minha família. Não são os vizinhos mais próximos, nossos irmãos?

Da frente de suas casas, eles viam os tijolos despencarem aos poucos, passavam todos os dias pela fachada – agora morta.

Das janelas dos fundos de nossa casa se enxergava os eucaliptos que minha mãe plantou para quebrar o vento intenso e frio que vinha das colinas no entorno e logo depois as casas, cada uma em um pequeno lote, permitindo que plantassem hortaliças, criassem algumas galinhas e colhessem algumas frutas do próprio quintal.

Vista Aérea do núcleo fabril Z.D.Costi e Cia. Ltda. década 50 – séc XX

Quem trabalhava na fábrica em seus primórdios recebeu moradia também. Era o planejamento de muitas indústrias para conter também sua mão de obra. Não havia transporte urbano como hoje.

Alguns operários foram mantidos durante anos após a decretação da falência da fábrica. Lembro que o síndico da massa falida queria cobrar aluguel ou que saíssem. Foi nessa época que fui visitar alguns deles que se dispuseram a desenhar e a responder um questionário. (Sempre gostei de pesquisar, de descobrir, de me aprofundar nas coisas…)

Antes do leilão da massa falida (área industrial), o que foi feito na segunda tentativa para conseguir um preço mais vil, esses moradores conviveram com o som de tijolos da chaminé caindo aos poucos. As cintas que faziam a contenção dos tijolos para manter aquela coluna de alvenaria da década de 40 do século XX estavam sem manutenção.  Aquela chaminé trazia a ideia de minha maior memória sonora em minha infância. Marcava as horas de início e fim do trabalho em cada turno. Marcava nossos horários de almoço e de encerramento do trabalho no final da tarde. Ouvir o apito significava que era hora de buscar meu pai.

Eu gostava muito de buscá-lo – sempre o último a sair da empresa. Ele também e sempre sorria ao me ver e dizia, espera um pouco. Vou guardar esses papéis. Abria o cofre (eu cabia dentro) e pegava o molho de chaves que estava pendurado na porta do cofre. Dava as últimas voltas nas chaves das portas principais, conferia se haviam fechado e depois prendia o molho de chaves, que quase formavam um círculo, na alça traseira da calça. Era um tilintar metálico que ecoava pelo escritório.

Casas operárias – Vila Z. D. Costi – Passo Fundo/RS (antes de sua demolição para liberar a construção de um grande shopping, já em funcionamento)

Então, pegava o casaco do terno e o jogava por cima do ombro segurando com um dedo pela gola e olhava tudo uma última vez.

Eu me sentia sempre muito segura perto do meu pai. E feliz.

No final do século XX, quando a empresa ia ser leiloada, fui visitá-la para me despedir e levei meus filhos. Foi ali que me dei conta do quanto amava aqueles espaços. Foi onde convivi com tantos operários, guardas, fornecedores, as meninas – muitas irmãs – do escritório que meu pai admirava muito pela lisura e seriedade no trabalho, o pessoal da contabilidade… São muitas pessoas cujo carinho segue a me impregnar a memória.

Foi uma dor só.

Onde os segredos da fábrica? A contabilidade? Como fazia os negócios?

Só quem passa por essa dor tamanha sabe o que é ter que olhar para um ex-operário e não saber como pagar o que lhe é devido. E ter que deixar o tempo passar e resolver.

Em nenhum deles eu senti algum sentimento ruim. Todos nós lastimávamos. Não tínhamos o que fazer.

Há pouco tempo eu soube que papai, antes de decidir algo importante que poderia mudar alguma atividade fabril chamava alguns de seus funcionários de confiança e lhes pedia opinião. Havia respeito mútuo.  Seu ZD era moderno no século XX!

– Vocês observam na hora – devia lhes dizer – sabem mais do que eu. Eu tenho que resolver esta mesa cheia de papéis e problemas. – E assoprava, como era o seu jeito de por a ansiedade para fora.

Agora, ao saber do fechamento da empresa que produzia metais e louças DECA no Rio Grande do Sul, marca que fez parte de projetos em meus muitos anos de profissão como arquiteta, um filme se passou em minha mente: minhas vivências há mais de 20 anos quando passei pela história falimentar do frigorífico. A diferença maior é que, tendo dados com maior rapidez que no século passado e as comunicações a favor, a DECA decidiu fechar sem aguardar uma falência. Chamo isso de competência administrativa.

Li muitas coisas nas redes sociais, de pessoas que não tem a mínima ideia do quanto a economia do Estado e do Município, os habitantes da região sofrem, o bairro sofre, a comunidade sofre, o corpo fabril de funcionários da empresa, os funcionários mais antigos sofrem, os fornecedores de décadas, os amigos, a família, alguns membros em especial na família e todos os descendentes.

Quem não perdoa uma falência é a alta sociedade. E isso parece ser o padrão social em qualquer localidade. Acho isso desumano.

Logo após a primeira concordata, procurei a FIERGS – Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul, de quem meu pai recebeu um prêmio em 1975 – a medalha de Mérito Industrial do RS. E fui acolhida e amparada até que houve a desistência, a planta industrial antiga não favorecia nova implantação industrial.

Nossa história familiar com produtos suínos vinha do outro século. Em todos os livros sobre imigração italiana no RS, lá estava inicialmente o meu avô Agostinho e seus filhos, os COSTI. Todos da mesma linhagem seguiram nos outros livros de comemoração, até o momento da empresa de papai, quando exportava para o Chile e produzia mais de 41 produtos. O que até hoje me dá orgulho.

Quem quiser saber mais, pode acessar este link e ler o artigo histórico, pesquisa feita por mim, com o apoio de minha mãe Alice – sempre e incondicional – e de minha irmã Celi.

Se desejar conhecer a pesquisa sobre Percepção Urbana e Topofilia, veja aqui seu resumo.

Se não conseguir abrir o artigo sobre a história do núcleo fabril ou sobre percepção urbana informe aqui e enviaremos a você.

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MARILICE COSTI

Escritora, palestrante, oficineira. Especialista em Arteterapia, mestre em Arquitetura (UFRGS), criadora e editora da revista O Cuidador. Prêmio Açorianos 2006 em poesia, tem 9 livros publicados. Cuidadora, mãe, avó e bisavó jovem. Diretora de SANA ARTE.

www.marilicecosti.com.br

Alguns comentários (12)

  1. Guilherme costi Sgiers
    added on 12 Ago, 2019

    Um belo texto. Retrata com cuidados uma época que não vivi, pois eu aguardava o fim da gravidez de minha mãe para vir ao mundo. Não possuo lembrança sentimental e é super difícil ler sobre a história de “fracasso” familiar. Graças a Deus, não fiz parte dessa geração. Lembro de sofrimentos e de rompimentos devido à falência. Por isso é tão difícil conversar sobre isso. Foi uma história linda, que dá continuidade a outras histórias. Quero olhar pra frente, começar de novo.

  2. Patrícia Torres
    added on 3 Ago, 2019

    Como sempre, a escrita leve e correta nos leva a passear pelo teu coração generoso e pelas tuas lembranças que, com teu talento, faz com que pareçam nossas.
    Que linda história!

  3. Neli Maria Germano da Rosa
    added on 3 Ago, 2019

    Acabei de ler teu texto, excelente! Repleto de boas e significativas lembranças. Em algum momento, lembrei de minha Casa de Infância (meu livro). Parabéns pelo texto, Marilice! Sinto, desde o primeiro livro teu que me “apareceu” nas mãos, que temos algumas afinidades. Contente por, de alguma forma, fazer parte da tua vida. Linda noite! 🙏🏽😘❤

  4. magda lena martins aliano
    added on 1 Ago, 2019

    Chorei ao ler, Marilice! Lembrei das histórias do frigorífico Armour, do gazapina, do posto de combustíveis em que meu pai era contador em Livramento! Migrantes que sabem dos esforços familiares para nos darem melhores condições de vida!

  5. pablo.sa.souza@gmail.com
    added on 1 Ago, 2019

    História parecida com da minha família. Tínhamos uma fábrica de enlatados Almeida.

  6. Nelson Rossetto
    added on 1 Ago, 2019

    Cumprimentos. Belo trabalho, esse é o castigo desenhado a toda Empresa FAMILIAR. Convivi muito com o sr.seu pai e tive a honra de indicar na Câmara Municipal a cidadania à Sra.sua mãe dona ALICE, foi uma honra. Tive a mesma insatisfação ao ter que fechar a empresa que meu pai construiu. Isso se vive, não se consegue explicar a desolação, mesmo eu tendo um filho que segue os passos do avô. Cordial abraço.

  7. Maristela Holzbach tagliari
    added on 1 Ago, 2019

    Tua história reflete a minha até no espaço geográfico… só que do outro lado da avenida. Me fez reviver o tempo de angústia e sofrimento daquele que lutou até não aguentar mais, em prol do seu ideal e dos que o ajudavam a levar adiante o grande projeto. Meu pai, J.J.Holzbach da CIPLAME, era muito amigo do teu pai. Compartilhavam as agruras e os prazeres de quem se dispõe a empreender.Tinham o cérebro nos negócios e o coração nos seus colaboradores.
    Parabéns pela bela narrativa.

  8. Maria Berna Noskoski
    added on 31 Jul, 2019

    Que história mais linda!!!!! Eu lembro do Pai da Marilice.Éramos colegas do Colégio Norte DaME e íamos de vez em quando na casa dela……nos ANIVERSÁRIOS!!!!!guardo lindas recordações daquele tempo
    Abraços querida!!!!!

  9. Fernando Neubarth
    added on 30 Jul, 2019

    Belo e sensível relato. Congratulações, Marilice! Obrigado por compartilhar.

  10. added on 29 Jul, 2019

    É uma história comovente, que eu já conhecia, sem as particularidades de que falas. E o modo como delas fala, compõe uma ilustração na mente de quem a lê, tal qual uma fotografia. Ou, quem sabe, uma imagem literária.
    Por um lado, meus sentimentos; por outro, meus parabéns. Sei que entendes o que digo, também eu passei por experiência semelhante com meu pai. “Fundo do poço é uma barra”, popularmente falando; poço despencando em cima, ainda pior. Grande abraço, amiga.

  11. Isabel Amalia Medero
    added on 21 Jul, 2019

    Fiquei emocionada, Marilice.

  12. Dilamar Rodrigues dos Santos
    added on 21 Jul, 2019

    É uma história . Não sei se triste ou só mais uma história. Mas é comovente e nos dá um retrato de nossa realidade. E você sem dúvida é herdeira legítima da coragem que deve ter tido teu pai.

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