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Memórias de Marilice: Meu Leitor TIO DAVID!

Memórias de Marilice: Meu Leitor TIO DAVID!

Um dia, ainda era universitária, me armei de coragem e entreguei um de meus textos a meu professor  Antonio Hohlfeldt.

– Este conto está muito bom, Marilice, você escreve bem. Envie para o Concurso de Alegrete. – disse-me ele.

Mais confiante, enviei o conto. Era tempo de correios, envelopes, selos, datilografia cuidadosa.

Duas semanas depois, recebi envelope do Alegrete, com timbre da Prefeitura Municipal. Meu conto obtivera o 1º lugar no Concurso Nacional de Contos Mário Quintana e eu era convidada a ir ao evento de premiação, onde receberia um cheque, dinheirinho que viria bem.

A viagem de ida foi de ônibus, longuíssima… A festa contou com a presença de Mário Quintana, poeta homenageado, e a volta também. Foram sete horas em uma kombi da Prefeitura. O poeta estava no banco de trás e fumava um cigarro atrás do outro. Devido à chuva intensa, os vidros do veículo ficavam fechados quase todo o tempo. Eu viajava com um de meus filhos, Demétrio, um garoto, que sofria com a fumaça e eu, com as narinas inchadas, tinha o meu nariz entupido… Chegarmos em casa foi um alívio.

José Édil de Lima Alves, um dos jurados do concurso, me perguntou se eu tinha mais textos. Gostaria de conhecê-los. Enviei-lhe meus poemas e, para minha surpresa, ele veio pessoalmente falar comigo. Foi quando me falou do cotidiano dos escritores: 5% para criação e 95% para transpiração! Parte desse tempo eu já conhecia, mas não sabia que ele aumentaria sempre, tamanho o nível de exigência que um escritor acaba tendo com o passar dos anos. Haja trabalho!

José Edil também me orientou sobre editora, qual delas eu devia procurar.

Movimento

Carlos Appel era (e ainda é) uma pessoa muito especial na rede editorial de Porto Alegre. Acompanhara seu trabalho com a publicação de Palmares no tempo da ditadura. Não fora fácil, pelo que eu soubera, enfrentar a censura daqueles tempos.

Em 1985, quando o procurei, não se publicava poemas femininos como hoje fazem tantas mulheres no RS. Eu tinha receio de publicar os meus. Não sabia como enfrentar o olhar crítico de minha família. Como reagiriam os parentes católicos praticantes e tementes a Deus? Poemas eróticos femininos na década de 80!? O que diriam meus pais? José Édil me apaziguou me indicando a leitura do “Cântico dos Cânticos” na Bíblia! A resposta estava lá!

Levei meus “poemas de amor e dor” ao Appel e aguardei. Dias depois, oficialmente, ele me convidou para acertar detalhes.

Muito feliz, enfrentei minha primeira experiência como autora… Lá, revisando os poemas, aprendi mais. Conversamos sobre tema, metáfora, verso, rima… melodia…ritmo. Appel quis saber por que eu colocava um “ponto” no final dos poemas, eram versos livres… Eu? Sentia necessidade, o ponto dava o encerramento necessário aos meus sentimentos de cada poema.

Seus ensinamentos me deixaram mais segura e meu primeiro livro foi publicado: Mulher Ponto Inicial!

No meu grande dia, recebi cartas, telegramas, bilhetes, cartões… e minha casa se encheu de flores. Tive muitas alegrias e a tristeza de saber que meu pai estava hospitalizado em Porto Alegre e que mamãe, fazendo ajustes na roupa azul cobalto que eu usaria, o acompanhava.

Dia do Lançamento do livro Mulher Ponto Inicial, Marilice autografa. Imagem P&B

Meus leitores

Sempre companheiros, tio David, irmão de minha avó materna, e tia Domingas foram os primeiros a chegar à Casa de Portugal, local do lançamento, e os últimos a sair. Quem não estava lá, pedira o livro e enviara  sua opinião pelo correio, por fax (!) ou em pequenos bilhetes, o que me surpreendeu muito.

Religioso apostólico romano tanto quanto foi petista doente, tio David era um grande leitor. Muitas vezes, parava com o olhar longe, ouvia e então argumentava com sabedoria. Hoje, ele estaria muito triste, indignado com a política, mas teria algo a mais a me dizer: que estávamos num outro ciclo ou que “seria bom implodir o Congresso Nacional”… e sorriria com aquele seu olhar penetrante entre a piada e a seriedade, para depois dizer algo otimista… teria algum alento a dar.

Inicialmente ele comprou um exemplar. Serviu-se de  uma taça de vinho tinto e escolheu um lugar para se apoiar. Encostou-se em uma das prateleiras da Biblioteca, onde ficou folheando e lendo meu livro. Depois, comprou mais dez, para seus muitos filhos!

1994 – Lançamento Clichês Domésticos de Marilice Costi – Centro Municipal de Cultura Josué Guimarães – Porto Alegre/RS

Lembro do orgulho de meus pais, do quanto o queriam bem e o admiravam. Um dos motivos era que meu tio, com mais de 60 anos, fizera vestibular com uma de suas filhas. Ambos cursaram Medicina e se formaram. Precisou formar-se para clinicar como homeopata, mesmo com muitas décadas de homeopatia e clínica.

Tio David passou a ser meu leitor, esteve presente em outros lançamentos de meus livros (Clichês domésticos – foto), e sempre adquiria mais de um exemplar.

Minha tia vinha sempre com ele, uma doce pessoa. Tínhamos um carinho enorme uma pela outra.

Meu tio nunca comentou meus poemas, nem ela. Conheciam bem a Bíblia e, certamente, leram os Cânticos.

 

Escrito em 29/05/2016 em Porto Alegre.

Aguarde mais histórias de Meu tio David neste blog.

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MARILICE COSTI é Especialista em Arteterapia, Mestre em Arquitetura, autora de diversos livros, entre eles: “As palavras e o cuidado: Arteterapia e Literatura”, “A fábula do cuidador” “Como controlar os lobos? e vários de literatura, entre eles Ressurgimento – livro Prêmio Açorianos em 2006. Foi editora da revista O Cuidador, para cuidar quem cuida (2008-2015), finalista no Prêmio Brasil Criativo – SP, em 2014.  Criou Cuidaqui.com. Atualmente atende em seu Atelier com Arteterapia e Literatura/ Cursos. Dá palestras.

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