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Como fazes falta!

Como fazes falta!

  1. Onde começou

Eu tinha 3 anos, quando o conheci. Fui aia do seu casamento com minha irmã, minha madrinha de batismo. Ele gostava de contar histórias sobre a minha infância e quando eu ficava com os dois namorando. Era muito divertido. A vida era feita para viver bem. E assim a levou.

Thé, como era chamado na família, sempre tinha lindas histórias pra contar… Talvez isso o fizesse tão fascinante nas conversas com alunos, parentes, amigos…

O que tinha de melhor, além do valor que dava à vida, era o respeito às pessoas. Mesmo que não concordássemos um com a opinião do outro, havia escuta para esclarecer e argumentar posições diversas da sua, o que ampliava o conhecimento de ambos e permitia um novo diálogo.

Foi professor universitário. Sempre na linha dos Direitos Humanos, da Justiça, do respeito, da liberdade de expressão, da compaixão e do amor ao próximo.

Minha irmã, Dulce Magdalena Costi, foi permanente cúmplice, amiga e parceira de vida e de tangos. Ela endossava seu conhecimento e o admirava. Elogiava o marido até para mim, que bem o conhecia.

Fui oposição ao seu pensamento por uma década. E com a maturidade descobri que pensávamos muito parecido.

Meu pai ouvia atentamente a todos e eu diria que, até certo ponto, ficava orgulhoso. Mas cansava-se. Então largava o guardanapo sobre a mesa de jantar e ia descansar. Seu dia seguinte iniciava às 6 horas.

Certo dia, ele me disse:

– Minha filha, quando eu tinha a tua idade também era incendiário, agora sou bombeiro. – e todos rimos. Era homem de poucas palavras. Fazia o “fecho” como se diz na literatura.

Antonio Frederico Knoll e Dulce Madaglena Costi Knoll

Thé e eu ficávamos ali por mais tempo, questionávamos, analisávamos. Um tentando convencer o outro. Ele ponderava o que eu dizia e eu o ouvia, pensando no novo argumento que eu teria. Ambos querendo acertar.

Ele foi fundamental em nossas festas familiares, com seu pensamento democrático e as piadas ao molho do vinho. Eu me sentia aceita – a transgressora a questionar desde Deus, a liberdade sexual, o feminismo, literatura até a esquerda e a direita, estudantes, leis, a ditadura… o que só se fazia em ambiente familiar. Era perigoso. Ali, eu me sentia livre, uma jovem se achando dona da verdade (sic)… Eu tinha sempre o seu respeito.

E assim convivemos décadas, o governo dando voltas até as Diretas Já! E entre um plano econômico e outro amadureci e passei a fazer conjeturas mais complexas… tantas variáveis…

Hoje, quando a informática e as startups mais exigem conhecimento das questões sociais e humanas para que sejam criadas na direção do bem, quando as relações humanas tornaram-se um click e textos ou imagens circulam com discutível veracidade nas mídias sociais, como fazes falta!  Eu estaria mais feliz hoje se tivesse a sua sabedoria para trocar opiniões e alimentar algumas certezas, tantas incertezas se amontoam no horizonte.

  1. Há esperança?

Vivo um tempo de impedimento, medo, desorganização e insegurança social, desvalorização das humanidades, desrespeito a valores e destruição de tantas construções coletivas, vigoramento de movimentos antidemocráticos. Onde tantas pessoas andavam décadas atrás?

O conhecimento histórico do Dr. Knoll faz falta!

Já o tempo de desastres climáticos indignava Dulce. Quando iam à praia de Atlântida, ela recolhia lixo enquanto caminhavam na areia e fazia breves discursos reclamando às pessoas próximas. Quiçá tenham sido educativos. E era melhor respeitá-la… Ai que se atrevessem!

Nada substitui a chegada do casal em minha casa quando vinham à Porto Alegre. Amava suas ligações no meu aniversário e dia das mães. Eu tinha enorme prazer e parava tudo para recebê-los e preparar a refeição. Enquanto tomavam chimarrão, Thé folheava jornais e Dulce ficava na cozinha comigo a me falar de suas tristezas. Ele não permitia que a tristeza tomasse conta das conversas. Temos que alimentar o bom sempre, repetia… E ríamos juntos, compartilhávamos a vida e suas peculiaridades, a política e as bobagens.

Hoje teríamos juntos mais esperança? Thé! Dulce! Como fazem falta!

Suas festas com churrasco e música para dançar eram imperdíveis.

  1. Família

Ainda tenho alguns de seus escritos (abaixo) – fez xerox, envelopou, selou e pos no correio enviando aos amigos. Eu sempre recebia.

Sinto gratidão por ter convivido com uma pessoa como ele e de ser presença na sua relação de amor com minha irmã. Thé e Dulce foram eternos apaixonados e valorizaram muito a família e os amigos.

Ambos descansam em paz.

 

– Algumas Frases de Antonio Frederico Knoll (Thé):
1) O amor é tão amplo, profundo e caprichoso que, às vezes, tenho medo de não saber amar.

2) A vida familiar é a melhor célula, com seus altos e baixos, a célula social verdadeira. Mesmo, porque resulta do que o amor fecundou. Nada supera o amor, mesmo com as suas incógnitas e suas surpresas. A vida familiar não é um mar de rosas, mas nela ocorre o melhor dos sentimentos que do coração verte até hoje.

3) As estrelas dessa constelação que me rondam na noite que se espreguiça louca, torcem para que o sol apareça logo para poderem dormir, já que o amor passou de ronda, enquanto o sol dormia…

 

Antonio Frederico Knoll foi advogado, docente da UFSM, Juiz da Brigada Militar. Viveu em Santa Maria/RS

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Escritora, palestrante, oficineira. Especialista em Arteterapia (AATERGS 072/0808), mestre em Arquitetura (UFRGS), criadora e editora da revista O Cuidador. Prêmio Açorianos 2006 em poesia, 9 livros publicados. Cuidadora, mãe, avó e bisavó jovem. Diretora de SANA ARTE.

 

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