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Collage e o novo mundo

Collage e o novo mundo

Quando eu fazia o mestrado, cursei uma disciplina, cuja teoria, formas e composições eram conteúdo para compreender o momento histórico das artes e arquitetura, e estimular processos criativos. Havia um novo olhar contrapondo o cientificismo moderno do final do século XX, assim como ao positivismo. Tudo passava a ser mais complexo. Não haveria mais causas simples para os fatos. Nossas certezas que eram de nossas experiências e de nosso conhecimento passaram a ser incompletas. A quantidade de informações desconhecidas tornou-se tão imensa, que nos sentíamos (e a sensação permanece) de fora,  à distância a observar um novo mundo. Não conseguíamos mais abraçar o todo. Perdêramos as certezas recebidas nas escolas. Parecia que – e hoje parece ser  uma verdade – que não teríamos mais o controle de nossa vida.

Se desconsiderássemos a questão temporal, os fatos estariam ocorrendo na velocidade da luz, com a mesma força e impacto das descobertas marítimas na Idade Média. Uma revolução ao desconhecido.

A informática, as novas formas de comunicação e a globalização passariam a ligar mundo, abrindo caminhos novos, e com tal extensão, que continuariam a ser assustadores.

Eu chegara a uma certeza: jamais teria todo o conhecimento de minhas disciplinas para ensinar aos alunos.

Decidi que o meu melhor seria dar tudo de mim para estimulá-los à pesquisa, buscar informações para uso responsável da tecnologia, comportamento ético, conhecimento dos seres humanos, suas percepções e deficiências, e autoconhecimento.

Na aula, após um exercício de processo criativo de Collage, foi assim que a minha poesia brotou em mim – era ano 2000:

 

mímese

(Marilice Costi)

a net mete falso

a perspectiva não é um abraço

a internet é o regaço do só

e a imagem é a mó do espaço

de pontos de vista finitos

 

somos apenas uma molécula a mais

numa quarta-feira de cinzas

e a distância entre átomo

é o suficiente para o vírus

 

entre o path e o config

onde perdeste o id?

 

internet/penetra/inter-nós

a imagem é farsa

 

um olhar através dela

tira os panos

*

A informática empurrava o mundo. Nunca mais caravelas rasgariam caminhos desconhecidos.

Teríamos que desenvolver soluções analisando muitas variáveis a mais em quaisquer problemas coletivos e familiares, alimentando-nos de uma parafernália de conhecimentos em uma sociedade líquida, impermanente, flexível, sem paradeiro.

Todos seguiríamos eternos aprendizes.

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MARILICE COSTI

Escritora, palestrante, oficineira. Especialista em Arteterapia, mestre em Arquitetura (UFRGS), criadora e editora da revista O Cuidador. Prêmio Açorianos 2006 em poesia. Tem 9 livros publicados, entre eles: As palavras e o Cuidado, Arteterapia e Literatura (2018) e A Fábula do Cuidador (2016), os mais recentes. Cuidadora, mãe, avó e bisavó jovem. Diretora de SANA ARTE.

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